AVENTURA OUTSIDE MARÇO 2011


21/03/2011
Sobre amizades e montanhas

No dia 1o de janeiro deste ano, os escaladores brasileiros Kika Bradford e Bernardo Collares partiram rumo à realização de um velho sonho: chegar ao cume do Fitz Roy, na Argentina, pela via Afanassief. Um acidente, no entanto, tirou a vida de Berna, considerado um dos mais experientes escaladores do Brasil. Pela primeira vez desde a morte do companheiro, Kika conta exatamente o que se passou durante a expedição. No texto a seguir, ela também explica o que torna duas pessoas não apenas amigas, mas grandes parceiras de montanha (KIKA BRADFORD)


                                                             Mar de morros: Vista do maciço onde se localiza o Fitz Roy

LEMBRO-ME DA PRIMEIRA VEZ QUE FIZ UMA TRILHA. Estava no acampamento Paiol Grande, em São Paulo, e nunca experimentara nada parecido. Uma menina maior que eu chorava de medo. A caminhada deve ter durado uns 45 minutos, e depois entramos num rio, lutando contra as águas que insistiam em nos derrubar. Foi uma aventura incrível para uma carioca de apenas 7 anos.

Voltei a essa colônia de férias muitas vezes depois. Lá aprendi a amar a natureza e desenvolvi valores de amizade, respeito e companheirismo. Foi nessa época que atingi meus primeiros cumes: Pedra do Baú, Bauzinho e Ana Chata, na região de São Bento do Sapucaí, interior de São Paulo. O desafio era grande e nos agarrávamos com força aos degraus das “escadinhas” das faces norte e sul do Baú. Subir a pedra não era apenas um desafio, mas também uma questão de honra para todas as “paioleiras de coração”.

Desde então, não parei mais. Esse esporte se tornou uma grande parte da minha vida. Fiz diversas escaladas nos Estados Unidos, onde morei entre 1999 e 2002, e depois no Brasil. Sempre me dediquei a escaladas de aventura: longas, em móvel, conquistas, big walls e alpinas. O desconhecido e o comprometimento são coisas que sempre me atraíram e me levaram para as montanhas. Naturalmente comecei a pensar em escalar na Patagônia, afinal ali estão algumas das montanhas mais desafiadoras do planeta.
 
Escaladores do mundo inteiro são atraídos pelas torres de granito das cadeias montanhosas do Fitz Roy e do Cerro Torre, na região de El Chaltén, na Argentina. Grupos de ávidos atletas chegam a esse vilarejo para passar a temporada de novembro a março, quando o clima é mais ameno. Porém, como bem avisa uma placa afixada na casa de Rolo Garibotti, o escalador mais experiente da região, ali é o lugar com o pior clima do mundo. Isso exige muita dedicação e, acima de tudo, paciência para aguardar as tão esperadas “ventanas” ou janelas – as brechas de tempo bom entre dias péssimos.
 
Para escalar nesse contexto complexo e comprometedor, é necessário experiência, técnica, visão, determinação, motivação e foco no objetivo – habilidades não muito fáceis de serem encontradas, juntas, em uma mesma pessoa. Arrumar parceiros para escalar por essa região, convenhamos, não é uma tarefa fácil. Eu tive a sorte de “achar” essa pessoa. Conheci o Bernardo Collares no cume do Dedo de Deus, no estado do Rio, em 2000. Eu havia escalado a via Teixeira com uns amigos, e o “Berna”, como era conhecido, estava fazendo a segurança para sua parceira na via Diedro Salomith.
 
Uma foto que eu tirei dele nessa posição registrou a data. Depois disso, não nos falamos durante anos.
Quando voltei a morar no Brasil, em 2002, entrei para a Aguiperj (Associação de Guias, Instrutores e Profissionais de Escalada do RJ), onde comecei minha vida de voluntariado no desenvolvimento do montanhismo no país. Foi aí que tive uma aproximação maior com Bernardo, que presidia a Federação de Montanhismo do Rio (Femerj). Saí da Aguiperj em 2007, e ele logo me levou para sua organização.
 
Por causa do trabalho, nossa amizade se solidificou. Começamos a escalar juntos, até que sugeri que ele se unisse a mim e ao escalador Seblen Mantovani em uma viagem para El Chaltén, no final de 2008. Foi nossa primeira temporada na Patagônia, que duraria até fevereiro do ano seguinte.
 
Aprendemos muito sobre a região e desenvolvemos uma parceria que transcendia tudo que eu havia conhecido sobre companheirismo em montanha até então. Tínhamos muitos aspectos parecidos, que nos proporcionavam uma grande sintonia. Aperfeiçoamos nossa parceria ao longo de diversas escaladas no Rio e invenções da nossa cabeça, como fazer os quatro cumes de Salinas, em Nova Friburgo, em um só dia (dois por caminhada e dois por escalada).

     A Dois: Kika e Bernardo na lagoa Torre, em El Chaltén                                          Bernardo, com a face oeste do Fitz Roy ao fundo                                    

Tempos depois, conversamos sobre tentar o Fitz Roy juntos. Na nossa segunda temporada em El Chaltén, em 2009, esperamos 60 dias de tempo ruim para enfim podermos subir para as montanhas.
 
Nossos corações estavam lá, e por isso resolvemos tentar a via que tanto sonhávamos, a Afanassief. Trata-se de uma via na face oeste-sudoeste do Fitz Roy, conquistada em 1979. É a mais longa dessa montanha, com aproximadamente 2 mil metros de extensão. Para chegar a sua base, é necessário caminhar por 9 horas em trilhas, neveiros, morainas e glaciares [a definição desses e de outros termos técnicos estão em um glossário localizado no fim deste texto]. É uma via de montanha muito isolada.
 
Nessa tentativa, em fevereiro de 2010, o frio foi extremo (a ponto de me fazer usar todas as roupas que tinha e ainda tremer), e as condições da via não era ideais, com muito gelo nas fendas. Nosso progresso era muito vagaroso e decidimos descer ainda no primeiro dia, a 200 metros da base.
 
EM 2010, UMA LESÃO NO MEU JOELHO esquerdo não me permitiu treinar e escalar tanto quanto gostaria. Conversei com o Berna e pedi para ele buscar outro parceiro. Ele não quis. Fui para El Chaltén antes dele, e olhávamos a previsão do tempo frequentemente, eu de lá e ele do Rio. Havia uma janela de bom tempo justamente quando ele ia chegar, e queríamos tentar novamente a Afanassief.
 
Subimos dia 1o de janeiro de 2011. Fizemos a caminhada de aproximação para a base em nove horas e começamos a escalar. As condições eram muito diferentes das do ano anterior: o calor era grande e, dessa vez, eu escalava de camiseta. Chegamos a nosso primeiro local de bivaque, exaustos e contentes, às 9 da noite (ainda com luz, como é comum nessa região durante o verão). No dia seguinte, continuamos avançando em direção ao cume do Fitz Roy. Escalávamos tranquilos, “devagar e sempre”. Nesse dia, paramos para dormir às 10h30 da noite.
 
De madrugada, sentimos flocos de neve caindo e acordamos de manhã com um nevoeiro intenso. Decidimos que deveríamos descer. Para isso, a melhor estratégia era subir um pouco mais para voltar por outra via. A Afanassief era uma opção perigosa para descermos por ter muita pedra solta e a qualidade da rocha não ser ideal em certo trecho. Subimos 30 metros e paramos – era impossível visualizar o caminho. Estávamos a aproximadamente 400 metros do cume. Esperamos cerca de meia hora, mas como o clima não melhorava decidimos descer pela mesma via que havíamos subido.
 
Tendo consciência do risco e do perigo de descer pela Afanassief, trocamos palavras de calma para assegurar um ao outro que tomaríamos todas as precauções necessárias para garantir nossa segurança. Assim partimos para a base. Por quatro rapéis, tudo correu bem. Eu já havia descido o quinto rapel e estava ocupada em montar a ancoragem para o rapel seguinte quando, de repente, escuto um grito. Instintivamente, agarro a corda e vejo o Bernardo caindo, batendo contra a rocha e ficando inconsciente. Tudo não deve ter durado mais que 2 segundos. Por um milagre eu consegui travar a corda, que havia ficado presa em uma pedra acima da gente, e parar a queda dele.
 
Gritei: “Berna!”, “Berna!”. Ele não me respondeu. Pensei: “fu$@#”. Inconscientemente, bloqueei minhas emoções. Pensei no que precisava fazer para tirar a corda da minha mão e transferi-la para uma ancoragem segura. O procedimento não foi fácil, mas consegui prender a corda. Foi nesse momento que ouvi gemidos. Era o Berna. Parei o que eu estava fazendo e olhei para ele, trocamos umas poucas e inúteis frases e ficamos nos olhando, apenas respirando. Quanto tempo durou isso? Não tenho certeza. Pode ter sido um, dois ou cinco minutos. Não tínhamos palavras e estávamos muito assustados.
 
Perguntei: “Berna, como você está?”. Ele respondeu: “Muito mal”. Pensei comigo mesma: “Que pergunta besta”. Ele queria saber o que havia acontecido e eu contei, com o coração na mão, que a ancoragem havia se soltado. Ele disse: “Acho que quebrei meu dedo” e me mostrou a mão esquerda.
 
Não dei muita bola para isso. Reparei que nossa segunda corda, que ele carregava, não estava mais presa na sua mochila. Pedi para ele olhar para baixo e dizer se podia vê-la. Sim, ele podia. Fiquei um pouco aliviada, mas ainda não sabia se eu poderia alcançá-la com apenas uma corda. Sem essa segunda corda, nossa situação ficaria muito mais precária do que já estava. Comecei a fazer os procedimentos necessários para me aproximar. Por sorte havia um platô entre a gente, e eu pude chegar a um lugar que ficava dois metros acima dele. Durante esse tempo, ele me perguntava várias vezes o que havia acontecido e me falava de seu dedo quebrado. 
 
                                       
                                                                                                      Berna na agulha Guillaumet

Fiquei assustada com as perguntas repetitivas, para as quais eu apenas respondia: “Estou aqui”. Minha intenção com essa resposta era assegurá-lo que eu estava por perto, sem perder o foco nos procedimentos que necessitava fazer para poder nos tirar dali. Até que, em um momento, ele me chamou: “Kika, não estou entendendo nada, não sei nem onde eu estou”. Isso foi um baque para mim. Parei tudo, fui para um lugar onde podíamos nos ver e perguntei muito séria: “Berna, você não sabe onde está? Não tem ideia?”. Ele respondeu que não. Comuniquei-o que estávamos no Fitz Roy e que, enquanto descíamos, a ancoragem saiu e ele caiu. Ficamos, novamente, nos olhando e respirando.
 
O MEDO DA SITUAÇÃO ERA MUITO GRANDE dentro de mim. Mas eu bloqueava qualquer sentimento que pudesse me tirar a concentração. Tive uma sensação, que continuou comigo por muitos dias, de que aquilo ali era um filme e eu, a protagonista. Era uma sensação de estar vendo tudo de fora. Comecei a dar comandos muito específicos e precisos para que ele fizesse alguns poucos procedimentos de que eu necessitava. Bloqueei também sentimentos de angústia pela dor que o Berna sentia. Com muita dificuldade, ele fez o que eu pedia, e assim eu consegui transferi-lo para um platô a uns 5 metros abaixo de onde eu estava. 
 
Fui para lá levando comida, água, saco de dormir e isolante térmico. Colocá-lo no isolante térmico foi um suplício necessário, e ele gritou muito de dor. Já deitado sobre o isolante e com o saco de dormir o aquecendo, dei-lhe água. Ele me falou das imensas dores na região do quadril, lombar e cóccix. Eu pensava em diversas opções de como descer nós dois, tentando determinar qual seria a menos complicada e complexa e, ao mesmo tempo, mais segura. Não me lembro de ter chegado a uma conclusão.
 
Tive que o deixar enquanto eu ia buscar a segunda corda, que havia caído em um platô, por sorte, exatamente 60 metros abaixo. Uma corda de escalada tem 60 metros de extensão, e se o platô fosse um pouco mais abaixo eu não teria como recuperá-la. Desci com uma angústia enorme, agarrei a segunda corda e comecei o trabalhoso percurso de subir de novo pela própria corda, com prussiks, para onde estavam Berna, nossas coisas e o caminho certo de descida.
 
Lembro de ter muita sede e de tentar quebrar o gelo dentro de uma fenda para poder chupá-lo. A corda congelada dificultava a subida. As emoções estavam, ao mesmo tempo, à flor da pele e trancadas a sete chaves. O percurso de subida por prussik foi difícil e cansativo. Chegando já perto da onde estava o Berna, provavelmente mais de uma hora depois do início da missão de resgatar a corda, ponderei se deveria dizer algo. Achei melhor não. Só pronunciei algumas palavras depois, quando já buscava mais coisas para levar para ele.
 
Não me lembro ao certo quando ele me disse que não poderia descer. Se foi depois que subi do resgate da segunda corda ou antes disso. Mas me recordo de suas palavras: “Kika, eu não consigo me mexer. Daqui só saio de helicóptero. Você tem que descer sozinha e buscar ajuda. Se o helicóptero não vier hoje...”. Meu coração ficou do tamanho de um grão de areia. Olhei para ele e disse que não pensasse assim, porque era impossível eu chegar à base naquele dia. Falei que eu tentaria chegar no dia seguinte e que era para ele aguentar firme. Eu não tinha idéia de quando eu poderia realmente estar lá, nem se chegaria mesmo à base. Havia tantas coisas que podiam dar errado: a corda prender, rochas rolarem, ancoragens soltarem, eu errar o caminho, acabarem meus equipamentos...
 
Não discuti sobre eu descer sozinha, apenas aceitei que tinha que fazer isso. Era minha única opção para ajudá-lo diante de tantos fatores: ele não poder se mexer, a força do trauma, os sintomas que me relatava, o caminho a ser seguido, o local onde estávamos – 1.500 metros acima da base, a 7 horas de distância de um abrigo de montanha e a 9 horas da estrada. Eu tinha que ir buscar resgate o mais rápido possível.
 
Ele me disse: “Kika, isso não foi sua culpa. Se alguém perguntar, tomamos todas as decisões juntos”. Surpreendi-me com essas palavras de carinho em um momento de tanta tensão. Ao mesmo tempo, não me surpreendi nem um pouco: esse é o Bernardo, coração gigante e sempre preocupado com os outros. Dei minha balaclava para ele, além de mais comida, água, remédios. Deixei-o o mais confortável possível e avisei que estava pronta para descer. “Vá com calma”, foi sua recomendação.
Dei um beijo em sua testa, disse “eu te amo” e comecei meu caminho.
 
                          
                                                  
Desafio: Kika caminha por campo de gelo na Patagônia
 
ERAM 14H DO DIA 3 DE JANEIRO quando fui embora, com o coração partido, procurar resgate. Aí residia minha grande motivação para descer o mais rápido possível: eu precisava buscar ajuda. Lembrei de uma frase que havia escutado sobre situações de emergência: “Devagar que estou com pressa”. Eu precisava ir rápido, mas precisava fazer tudo com calma para evitar outro acidente.
 
Comecei a dividir o grande percurso em objetivos físicos: a “fissura ancha”, a base do longo trecho com rocha “podre”, a travessia, a headwall, o local de bivaque, a aresta, o col, o platô onde chegamos no ano passado, a travessia, os últimos rapeis, a base, o neveiro depois da base, o glaciar etc. Lembrei do livro Tocando o Vazio, de Joe Simpson, onde ele descreve seu árduo percurso para sair de uma montanha com a perna quebrada. Essa explicação simplória do livro não faz juz ao feito de Joe, mas me lembrei que ele estabelecia metas de tempo de 20 minutos. Decidir usar objetivos físicos.
 
A cada rapel, eu escolhia cuidadosamente o local da ancoragem e o equipamento a ser utilizado. Por mais que eu quisesse criar todas as ancoragens com meus melhores equipamentos e peças, sabia que deveria escolher com muita cautela o que usaria. Cada peça utilizada e deixada para trás significava uma possibilidade a menos no futuro. Eu não havia subido a via pensando em retornar por ela – muito menos sozinha –, assim não havia prestado atenção em possibilidades e caminhos para a descida. Grande parte da minha atração pela vida nas montanhas é o companheirismo, é dividir e compartilhar os momentos, decisões e responsabilidades com meu parceiro. E lá estava eu, só, em uma imensidão de pedra, neve e vento, contando apenas com minha mente e experiência para tomar decisões de vida e morte, tanto em relação a mim quanto ao Berna.
 
A cada rapel eu determinava cautelosamente o local por onde a corda iria passar a fim de minimizar a possibilidade de ela derrubar uma pedra na minha direção ou ficar presa em um lugar inacessível. Em cada puxada de corda, eu rezava e pedia a Deus para que a corda viesse sem enganchar em nenhum lugar ou derrubar nada em mim.
 
Eu fui criada em uma família católica, mas não sou praticante. Acredito em uma “força maior”, uma energia, mas não sigo a religião da minha família. Mesmo assim, pedi a minha mãe (que havia ido me visitar em El Chaltén) para me dar uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima, de quem minha avó era devota. Levei-a comigo. Escalo há 13 anos e nunca havia pedido uma medalha ou levado comigo algo com essa simbologia. Nessa escalada, a medalhinha da minha avó não saiu do meu bolso.
 
A cada puxão de corda, eu via, com surpresa, alegria e alívio, que a ponta caía em minha direção perfeitamente, sem enganchar ou derrubar coisa alguma. Era quase um milagre diante das condições da rocha por onde eu baixava. Desci sentindo essa energia, Deus, essa força maior me protegendo. A sua maneira, Berna estava comigo também. Ele era uma pessoa de luz, com uma sensibilidade e energia muito fortes. Sei que ele me acompanhou nesse caminho, mandando todas as forças positivas que podia. Mesmo assim, desci numa solidão incrível, reforçada em cada procedimento realizado.
 
Numa escalada a dois desse porte, as responsabilidades e funções são divididas. Eu tinha que fazer tudo sozinha: decidir o lugar onde montar a ancoragem e se usava uma ou duas cordas, depois jogar a corda, rapelar, montar a próxima ancoragem, puxar a corda, desembolar a corda, organizar o equipamento, rever procedimentos. Era extremamente cansativo.
 
Finalmente, depois de muito tempo, cheguei ao final da minha primeira etapa. O trecho de rocha podre havia ficado para trás, ou melhor, para cima. Uma pequena vitória que foi celebrada em poucos segundos. Continuei meu caminho por uma crista extremamente exposta, que era o topo da headwall. Ali, achei uma ancoragem montada, a primeira de muitas que eu já sabia que estariam naquele trecho.
 
Verifiquei seu estado e comecei a fazer o que era necessário para melhorar a segurança. Por causa da minha localização, o vento era infernal. Eu ficava parada esperando a rajada passar para ter mais claridade para verificar as condições da ancoragem. Mas Eolo, o deus do vento, estava com tudo.
 
Percebi que aquilo não era apenas uma rajada e que eu teria que aturar o vento como estava. A ferocidade me deixava desorientada, e trabalhei o mais rápido possível para sair dali.
 
Evitava rapelar com duas cordas, pois nessa situação é mais fácil elas engancharem e derrubarem pedras, além de ser mais difícil de eu puxá-las e recuperá-las. Rapelando a headwall – foram uns nove rapeis –, eu precisei muitas vezes descer 60 metros. Mas ali eu conhecia bem o caminho e sabia que havia ancoragens já montadas em toda sua extensão. Eu precisava usar essas ancoragens para poder economizar o escasso equipamento que tinha. As cordas estavam congeladas. As luzes do dia já chegavam ao fim. O clima piorou e começou a nevar. A parede estava encharcada. Os rapeis em diagonal mostravam-se complicados. O cansaço se apoderava do meu corpo e da minha mente.
 
Às 10h40 da noite, com as últimas luzes, cheguei ao platô onde tínhamos feito nosso primeiro bivaque. Outra pequena e breve celebração. Parei para decidir o que fazer: eu queria continuar, precisava acionar o resgate, necessitava descansar, por onde ir? Não consegui visualizar o caminho certo e decidi esperar amanhecer para prosseguir. Pensei que era melhor chegar no dia seguinte do que não chegar.
 
A NOITE FOI UM TORMENTO. Ventou e nevou o tempo todo. Eu estava com um saco de bivaque, tinha um fogareiro comigo e podia esquentar água, mas mesmo assim tremia incontrolavelmente. Tentei comer porque não havia ingerido nada durante o dia. Enfiei meia dúzia de biscoito Oreo goela abaixo.
 
Tomei um pouco de água, estava extremamente desidratada. Coloquei a garrafa com água quente entre as pernas para produzir um pouco mais de calor. Tentei dormir. Cochilei por curtos períodos de, no máximo, 20 minutos. Acordava, fervia mais água, me ajeitava para prevenir a perda de calor e cochilava. Acho que foi nesses momentos desperta que me permiti pensar, pela primeira vez, no Bernardo. Imaginei o frio que ele deveria estar sentindo. Mas tentei afastar o pensamento porque eu necessitava da minha frieza, do meu distanciamento para poder me manter viva e buscar ajuda.
 
Às 4h45 desisti de tentar dormir e comecei a organizar o material que ainda tinha. Saí da minha toca às 5h30 e comecei a descer às 6h15, quando a névoa deu uma trégua. O ambiente era extremamente distinto daquele de três dias atrás, quando passamos por ali. Onde antes só havia rocha agora estava congelado ou com neve. Em vez de um céu azul e calor, eu só via o cinza das nuvens e sentia o vento frio.
 
Não tinha certeza por onde ir: direita, esquerda ou aresta? Escolhi o caminho que não me fecharia as possibilidades no futuro: pela aresta. Comecei o dia já muito cansada e com duas cordas congeladas. Sempre que podia, desescalava e, quando isso não era possível, montava o rapel. Nas desescaladas, por falta de forças, jogava pelo menos uma corda para baixo, com o cuidado de manter uma ponta comigo. O cansaço e uma dor monstruosa no pescoço não deixavam que eu carregasse as duas cordas comigo.   
  
Entre rochas, neve, gelo, cordeletes, puxadas de corda, mosquetões, caminhadas, mochila pesada e ventos uivantes, fui ganhando terreno. O cansaço físico, mental, emocional e psicológico eram extremos. Muitas vezes senti vontade de parar um pouco, descansar e cheguei mesmo a pensar que não tinha forças para continuar. Mas não me permiti isso. Precisava acionar o resgate.
 
Agora, olhando para trás, tenho plena consciência de que lutava também por minha sobrevivência. Qualquer erro, qualquer displicência ou desistência podia significar um acidente ainda pior. Na hora, porém, minha motivação era exclusivamente descer sã e salva, o mais rápido, para encontrar ajuda. Então descia, descia e descia.
 
Já próxima do local onde havíamos chegado no ano anterior, num estado de torpor completo, deixei minha mochila e as cordas em um platô e fui buscar um lugar para montar o rapel. Cada movimento era difícil, mas necessário. Escolhi um lugar que parecia perfeito, um grande bico de pedra onde eu necessitaria de apenas uma fita de 120 centímetros. Procurei de um lado da cadeirinha, do outro lado. Não tinha mais. Já havia usado todas nas ancoragens anteriores.
 
Fiquei alguns segundos olhando o vazio, mas logo parei de pensar no “ideal” e pensei no “real”. Peguei uma fita de 60 centímetros e usei-a mesmo assim. Subi para buscar minha mochila e cordas. Muito perto de onde elas estavam, avisto algo amarelo largado no chão. Parecia uma fita. Abaixo, agarro a tal coisa e, voilá, uma fita amarela de 120 centímetros. Estava lá, largada por sei lá quem, no meu caminho, me esperando. Não pude acreditar. Agradeci aos céus, aos deuses, à linda energia que me rodeava e me cuidava. Será que era o Berna ali comigo? Com ela, pude fazer a descida.
 
O PERCURSO, O MESMO DO ANO PASSADO, agora já era conhecido. Eu tinha mais seis rapéis até a base da via, se tudo desse certo. Parei por cinco minutos pela primeira vez, comi uma barrinha energética, tomei alguns goles de água, fui ao banheiro e, lutando contra a vontade de não fazer mais nada, montei o próximo rapel e continuei meu caminho.
 
Depois de um rapel de 30 metros, montei uma ancoragem para o próximo rapel de 60 metros. No ano passado, ele não havia causado nenhum problema, por isso nem pestanejei, usando as duas cordas para chegar ao platô 50 metros abaixo. É impossível usar palavras para descrever meu estado de cansaço. Quando digo que estava cansada, isso não chega nem perto do estado em que me encontrava. Estava no meu limite emocional, físico e mental. Nesse rapel, meu corpo cedeu à gravidade e minha mochila, pesada, me puxou para trás. Não tive forças para me manter ereta e deixei o corpo estirado e jogado na corda. Tentei sentar na cadeirinha para rapelar mais confortavelmente, mas não tive forças ou ânimo. Fui descendo como estava mesmo até chegar ao platô. Ao contrário do que pensava, lá não pude simplesmente sentar e tirar meu peso da corda, pois a declividade não me permitia fazer isso. Lutando contra a vontade de ficar ali – lembro-me de pensar: “Não quero mais” –, fiz um esforço e coloquei-me em pé no platô. Ufa.
 
Puxar tanta corda congelada foi pesado. Puxei, puxei e puxei, a corda passou pela ancoragem e começou a descer em minha direção. Até que ela se prendeu em um lugar uns 25 metros acima de mim. Subir para destravá-la seria impossível. Tentei puxar de vários ângulos, fiz diversos movimentos distintos para ver se algum, miraculosamente, fazia a corda se soltar. Mas a dita-cuja estava presa e não me restou alternativa a não ser cortar um pedaço dela o mais alto possível. Fiquei com uma corda de 60 metros com a alma exposta em dois lugares e outra corda, com a capa perfeita, de 17 metros. Refiz a travessia, onde qualquer bobeada significaria um passeio pelos desfiladeiros do Fitz Roy. Meus nervos estavam à flor da pele, mas no final foi muito mais fácil do que imaginava.
 
Um rapel curtinho para a aresta. Parei em frente à ancoragem que ali estava e o vento, mais uma vez, resolveu mostrar toda sua brutalidade. Já havia passado uma situação parecida lá em cima, mas agora o vento vinha com neve junto, que pareciam pedrinhas sendo atiradas contra meu rosto com uma força sobrenatural. Resolvi esperar a rajada passar, me protegendo contra o ataque. Mais uma vez, porém, ela não passou. No desespero de sair dali para um lugar mais protegido, não verifiquei direito a ancoragem. Vi que tinha um cordelete que havíamos deixado no ano passado, além de uma fita. Uni os dois, passei a corda e comecei a descer. Assim que entrei na parte vertical, uma dessas peças se soltou e eu caí uns poucos metros até a outra travar. Que susto! Pensei: “Não posso me acidentar aqui, ainda mais aqui, pertíssimo da base”.
 
Depois de algumas respirações profundas, decidi continuar sem montar outra ancoragem, confiando na que havia segurado esse impacto. Desci com muito mais medo que antes, mas nada aconteceu e cheguei à próxima ancoragem depois de haver perdido mais 20 metros de corda. Novamente a corda tinha se prendido e eu fiquei com dois pedaços, um com 17 metros e outro com uns 40 metros.
 
NO ANO ANTERIOR, tínhamos chegado à base com apenas dois rapeis a partir daquele lugar. Porem, eu não me lembrava se eram dois rapeis curtos ou longos e torci para que eu não precisasse montar mais ancoragens. Meus equipamentos estavam extremamente limitados e não sabia se teria a peça certa para a fenda certa.
 
Foram dois rapeis até a base. Dali ainda havia um neveiro de 45o para eu descer. Nas minhas condições, decidi que era melhor rapelar. Puxei a corda e mais uma vez ela ficou presa. Cortei-a ainda mais e levei os dois cotoquinhos de corda comigo. Logo vi que a moraina ao lado do neveiro estava “atraente” e fui descendo por ela. Quando me dei conta de que não ia precisar rapelar, larguei as cordas. Prossegui descendo com todo o resto e, sinceramente, não sei por que segui com parte do equipamento. Em um momento, vi um filete de água e decidi parar. Tomei diversos goles, comi mais duas barrinhas e larguei tudo que não necessitava ali mesmo: mosquetões, friends, nuts, comidas.
 
Fiquei apenas com um 0.75, uns três mosquetões, fitas, além do ATC e do mosquetão do Bernardo que eu havia trazido comigo caso precisasse usar. Eu havia chegado à base, mas o caminho ainda era longo e perigoso. Eram 14h45 da tarde do dia 4 de janeiro, quase 25 horas depois de eu deixar o Berna.
 
Ainda necessitava cruzar o glaciar norte do Fitz, que tem muitas gretas e se localiza a, pelo menos, sete horas de um lugar onde eu poderia passar um rádio. De pouco em pouco, fui avançando no glaciar, vendo as pegadas que havíamos deixado ao subir. Ainda sem óculos escuros, minha visão começou a reclamar. Parei para colocá-los. Eu tentava estabelecer pequenas metas, mas por mais que fossem curtas meu corpo não me permitia atingi-las. Eu parava com frequencia, com muita dor no corpo e na alma. Tentei tirar as luvas, só que minha mão doía, obrigando-me a vesti-las de volta.
 
De repente escuto um grito: “Eeeeeeiiii”. Não vi nada, mas sabia que só podia vir de um lugar, o Passo do Quadrado. Gritei: “Ajudaaaaaaaa”. Quase comecei a chorar, mas novamente bloqueei essa vontade. O caminho era árduo e eu precisava da minha claridade emocional e visual. Segui caminhando e gritando: “Ajudaaaaaa”. Não tinha idéia de quem poderia ser. Imaginei que fossem turistas e gritei: “Heeeelp”. Fiz sinal de ajuda com os braços. E eles, de tempos em tempos, gritavam:
“Eeeei”. Parei de responder para conservar energia.
 
Dali eram apenas mais 300 metros de desnível – para cima! – até o Passo do Quadrado. Dois passos, uma parada rápida, três passos, uma respirada, dois passos... Comecei a subir o neveiro final. Já não escutava mais as vozes e fiquei com medo que as pessoas tivessem ido embora. Mas tinha certeza de que, mesmo sem entender o que eu dizia, eles haviam compreendido que algo estava errado.
 
Subi cerca de 80 metros, quando então vi duas pessoas muito perto de mim. Era o Juan, meu namorado, e Luis, seu amigo, que tinham ido me buscar. Atirei-me na neve, chorando descontroladamente. Foi a primeira vez que me permiti chorar. Forcei-me a parar para dizer o que havia acontecido e onde estava o Berna. Subimos os metros finais e, ao chegar à parte de rocha, Luis foi na frente para já passar um rádio para El Chaltén. Quando passei por ele, ainda confirmei algumas informações e segui caminhando em direção a Piedra del Fraile.
 
EU JÁ NÃO CAMINHAVA BEM, não controlava mais o tempo, não tomava mais decisão nenhuma, por menor que fosse. Segui cegamente o que me mandavam fazer. Juan levava minha mochila e me cuidava com amor e carinho. Eu sentia que podia parar em qualquer lugar e dormir.
 
Chegamos a Piedra del Fraile já no limiar do dia. Estavam lá a Gabi, uma amiga minha e do Berna, e a Marcela, que havia sido enviada pela coordenadora de resgate. Eu e Gabi nos abraçamos e choramos. Palavras eram desnecessárias naquele momento. Passei novamente as informações e a localização para a Marcela, que por rádio comunicou o resgate. Sem forças, fiquei em Piedra del Fraile por essa noite, onde comi e bebi alguma coisa.
 
No dia seguinte, eu e Juan seguimos por mais duas horas até a estrada que nos leva a El Chaltén, onde pegamos uma carona até o posto de saúde do vilarejo. As pessoas me olhavam com uma cara de sei-lá-o-quê. Algumas já me cumprimentavam com pesar. Doutora Carolina, a coordenadora de resgate, logo me atendeu. Perguntei o que iriam fazer. Ela me respondeu: “Kika, não há nada que possamos fazer”. O clima não estava bom para que um grupo de resgate chegasse a Bernardo e descesse com ele em segurança.  
 
Desabei. Minha fortaleza, minha motivação foram por água abaixo, levadas pelo vento. Sentia que meu esforço havia sido por nada, que trabalhara dois dias no limite das minhas forças para não conseguir ajudar a meu amigo. Não podia acreditar.
 
Ela me explicou a decisão deles e me levou para conversar com Serginho, Júlio e outros escaladores. Todos haviam estado presentes na reunião do grupo voluntário de resgate na noite anterior. Havia sido um consenso entre todos, escaladores de ponta, guias internacionais, resgatistas. Não havia como subir sem colocar em risco a vida deles. O clima não permitia isso.
 
Recebi muitas mensagens de apoio, via Facebook, email, telefonemas, de amigos, familiares e pessoas que não viam há séculos. Não conhecia muitas delas. Teve quem me chamasse de heroína. Não me considero heroína, longe disso, não gosto desse rótulo. Fazer essa escalada para chegar ao cume do Fitz era um sonho que criei e compartilhei com Berna por três anos. Nem de longe imaginei que eu estaria contando uma história assim.
 
Foi uma fatalidade a perda traumática de meu melhor amigo, de um grande parceiro de montanha, de um ser humano iluminado. Compartilhei parte da minha vida e aprendi muito com ele. Acima de tudo, aprendi a linda aventura que é viver intensamente, não esquecendo o passado e mirando o futuro. A mim, só me resta seguir esse exemplo. Kmon!
 
Texto extraído da palestra “13 anos em 1.500m” e do livro a ser publicado ainda este ano pela autora.
 
GLOSSÁRIO:

ANCORAGEM – montagem dos equipamentos necessários para a fixação do escalador à rocha. Pode ser composta de duas ou mais peças de proteção.
BALACLAVA – gorro que cobre quase o rosto inteiro, deixando de fora apenas os olhos e, às vezes, o nariz.
BIVAQUE – acampamento improvisado ao ar livre, com equipamento mínimo.
COL – uma depressão ou passagem entre dois pontos altos da montanha.
CORDA COM ALMA EXPOSTA – quando a capa que envolve os fios da corda sofreu algum dano e está “condenada”.
CORDELETE – corda auxiliar
FRIENDS – equipamento de escalada móvel usado para proteção em fendas. Ele se expande ao ser ativado.
GLACIARES – grande massa de gelo, formada ao longo de milhares de anos.
HEADWALL – último trecho da montanha, a parede final que leva ao topo.
MORAINAS – trechos de pedras soltas, que foram transportadas ao longo dos séculos pelos glaciares.
NEVEIROS – bolsões de neve, geralmente fofa, em inclinações de até 50º.
NUTS – equipamento de escalada móvel usado para proteção em fendas, passivo (que não expande).
PRUSSIK – nó feito com corda auxiliar para travar o escalador na corda principal durante a ascensão.
 

 

 








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