AVENTURA Terra


25/04/2012
O sonho da asa própria

Há exatos dez anos, o brasileiro Ekkehard Schubert levantava voo com o primeiro avião planador de concepção inteiramente brasileira, feito por ele próprio. E hoje, aos 70 anos de idade, ele ainda sonha em fabricar sua aeronave em série. O motivo? Voar está no sangue 


PLANO DE VOO: Ekki na pista do aeroclube de Caçapava (SP)
(foto: Flavia Schubert)
 
Por Mario Mele

PILOTOS DE PLANADORES DIVIDEM uma mesma opinião: eles não achariam a menor graça em ser comandante de um Boeing ou Airbus. “Gosto da interação com a natureza que é necessária para voar de planador”, diz Flavia Schubert, que tirou brevê há sete anos. “Para ficar por mais tempo no ar é preciso estar constantemente atento aos lugares em que está voando, às situações que favorecem à térmica e às condições que podem ser desfavoráveis, como a formação de chuvas”, completa. “Assim é feito um voo seguro.”

Flavia descende de uma família de especialistas em voo a vela – o ramo da aviação representado pelos planadores. Seu pai, Ekkehard Schubert, se formou engenheiro aeronáutico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e fez carreira na Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A). Profissionalmente, Ekki – como é conhecido por todos – sempre esteve envolvido no que mais gosta: projetar aviões. Em março, completaram-se 10 anos desde que seu P1, o primeiro planador de concepção e fabricação inteiramente brasileiras, levantou voo.
 
Não ver os modelos saírem do papel é uma espécie de trauma que profissionais como Ekki carregam. Em 1996, decidido a se livrar desse carma, ele colocou em prática o sonho de dar vida a um planador. “O Brasil sempre precisou de um biplace”, diz se referindo ao modelo de planador de dois lugares que é muito utilizado na formação de pilotos. “Até hoje são aviões caros para serem importados.” 

Ekki conseguiu reunir 70 sócios, que durante alguns anos pagaram uma taxa mensal de patrocínio. O protótipo tomou forma e, em março 2002, Ekki transformou-se de engenheiro em piloto. A bordo de seu avião construído em fibra de vidro, com 8,3 metros de comprimento por 16,5 metros de envergadura (medida entre a ponta de uma asa à outra), ele mirou a pista asfaltada do Aeroclube de São José dos Campos (SP), pronto para decolar. “O primeiro voo do P1 foi emocionante”, diz, sorrindo ao se lembrar do medo que sentiu naquele momento. 

“Me preparei muito bem, fiz um planejamento do que poderia dar errado e sobre o que eu faria em cada caso. Em inglês, chamamos isso de what if, ou ‘e se.” O P1 estava equipado com um paracaudas, uma espécie de paraquedas montado na parte posterior. Caso o planador entrasse num parafuso impossível de ser revertido, esse dispositivo daria um puxão no rabo do avião e o estabilizaria novamente. Além desse cuidado, uma semana antes do primeiro voo Ekki realizou uma série de testes na pista de decolagem. Puxado por um carro, o planador primeiro atingiu uma velocidade de 40 km/h. Em seguida, a 70 km/h, já saiu um pouco do chão. A 80 km/h, Ekki subiu cinco metros acima da pista. Depois foi só esperar pelo teste de fogo. 

Como é comum na decolagem de um planador, o P1 foi rebocado por um avião monomotor até uma altura de quase meio quilômetro do chão. Então Ekki moveu uma alavanca e se livrou do “cordão umbilical” que ligava seu planador ao monomotor. O P1 finalmente voava com as próprias asas. “Na hora do vamos ver, o coração bateu mais forte”, lembra Ekki. “No alto, conversei comigo mesmo: ‘Relaxa, cara, está tudo bem’. No fundo, eu sabia que ia dar certo. E foi perfeito.” 

Uma coisa é pilotar um avião pela primeira vez. Outra bem diferente é estrear o avião que você mesmo desenhou e construiu. Com o P1, Ekki havia sido rigoroso em disciplinas como “estrutura aerodinâmica”, “meteorologia”, “teoria de voo” e “habilidade de pilotagem”. A recompensa, quando aterrissou em total segurança, foi levar um banho de mangueira dos bombeiros, um ritual famoso pelo qual passam os pilotos que fazem uma aeronave voar pela primeira vez.

“SEGURA O CANOPI, SEGURA O CANOPI.” Em pé, na beira da pista gramada do Aeroclube de Voo a Vela do CTA, Ekki dá mais um sinal de zelo ao ver que um piloto aspirante deixava a cobertura plástica do cockpit balançando enquanto o planador alemão ASK 21 era empurrado para o ponto de decolagem. “Tenho que falar, senão esculhambam”, ele me diz em voz baixa. Enquanto espero a minha vez de voar, outro aluno cola nele. “Mestre, o senhor viu meu pouso?” 

“Com certeza, porque vi todos. Só não me lembro exatamente do seu”, respondeu. Em terra firme, o criador do P1 é não só o diretor, mas um radar humano do Aeroclube de Voo a Vela do CTA, na zona rural de Caçapava (SP). Atento a tudo, Ekki sabe quem são instrutores e alunos que estão no ar e o piloto que está no comando do avião rebocador em todos os instantes – e esses pilotos se revezam constantemente. Também está a par dos voos que restam no dia. “Você é o próximo a decolar”, ele aponta para mim. “Tudo bem ir com a Flavia?”, pergunta em seguida, se referindo à filha que já participou de campeonatos nacionais de planadores. “Claro”, respondo.

Flavia foi quem me deu carona de São Paulo até aquele aeroclube, no interior do estado. Durante as quase duas horas do trajeto, me senti totalmente seguro com o ritmo e a pilotagem que ela impôs a seu Peugeot pela via Dutra. Concluí que não poderia haver piloto melhor para minha estreia no voo a vela. 
Vesti o paraquedas – equipamento de segurança recomendado aos tripulantes do planador – e ouvi suas instruções. Já acomodado na cabine, lembrei-me de manter o canopi entreaberto enquanto cinco pessoas empurravam a aeronave à cabeceira da pista. No banco da frente, assisti de camarote ao monomotor nos puxar.

Antes de o avião motorizado sair do chão, com o canopi devidamente fechado, senti que já flutuávamos sobre a pista gramada. Quando estávamos a pouco mais de 300 metros do solo, Flavia liberou a corda. Fui surpreendido por um solavanco e pela sensação de que a cauda de nosso ASK 21 iria nos ultrapassar e lançar o avião num looping frontal. “Flavia vai saber estabilizar o voo”, pensei. Quando olhei para trás, ela abriu um sorriso. Parecia mais calma do que quando, ainda sobre as quatro rodas, pegou a rotatória para deixar o centro de Caçapava.

Ainda no solo, Ekki me falara de uma tal variável “N”, conhecida como “fator de carga”. “Na sala de aula do ITA, os alunos aprendem a equação. Aqui você a sente de fato: o óculos fica mais pesado, as bochechas caem”, explicou. Quando finalmente percebi que havia sobrevivido à variável “N”, pude admirar a imensa planície entre a serra da Mantiqueira e a serra do Mar, rasgada pelo imponente rio Paraíba do Sul.

Apesar de o dia estar úmido, nublado e longe da condição perfeita para um voo a vela, Flavia conseguiu achar boas térmicas, que nos mantiveram no ar por aproximadamente 15 minutos. Lá em cima, pensei que o voo silencioso é mesmo uma maneira privilegiada de olhar a Terra por cima. Talvez eu estivesse experimentando a sensação de um pássaro que se sustenta no ar pela primeira vez. “Melhor do que isso, só se fosse a bordo do P1”, eu disse a Ekki ao pular para fora da cabine. Ele e os outros pilotos já haviam me falado das inovações tecnológicas do planador brasileiro que, apesar de já existir há dez anos, ainda carrega designs atualíssimos. 

Ekki foi visionário em seu P1 ao usar conceitos praticamente esquecidos pela aerodinâmica. Por exemplo, a asa elíptica, cuja funcionalidade é reconhecida desde antes da segunda guerra mundial. “É a melhor asa, só que não é largamente utilizada porque é difícil de ser feita”, diz Ekki. Outra ideia que ele pôs em prática é a ponta da asa puxada para trás, algo que melhora o rendimento de voos em baixa velocidade. Atualmente, a mesma tecnologia está sendo aplicada nos novíssimos aviões comerciais Boeing 787 e Airbus A350. 

Ekki agora está envolvido em um novo desafio: homologar o P1 junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para fabricar seu planador em série e poder comercializá-lo a aeroclubes brasileiros. “O P1 já saiu do hangar várias vezes e soma mais de 400 horas de voo. O problema é que ele ainda está um pouco pesado, e com alguns comandos duros.” Mas Ekki, que segue à risca os relatórios da ANAC, está bem otimista quanto à segunda versão de seu planador. E ele tem a longevidade da família a seu favor – o pai dele, Franz Schubert, voou até os 80 anos de idade. É por isso que Ekki, aos 70, continua tão entusiasmado do que alguém como eu, que voou pela primeira vez.  
 
(Reportagem originalmente publicada na revista Go Outside de abril de 2012)







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