AVENTURA Terra


01/06/2012
De olhos quase fechados

Casal norte-americano mostra que nada é impossível ao embarcar em uma expedição de bike pelas Américas, deixando de lado um pequeno “porém”: ele está perdendo a visão e ela não enxerga nada

Por Mariana Mesquita


MOMENTO RELAX: Curtindo a paisagem da Ruta 3, a caminho de Rio Grande, na Terra do Fogo, Argentina

LANÇAR-SE EM UMA EXPEDIÇÃO em nome de duas paixões: a bicicleta e o desconhecido. Conhecer terras distantes e sentir na pele a adrenalina de pedalar por lugares incríveis. São muitas as razões que levam os amantes das duas rodas a embarcar em viagens mirabolantes. Mas um casal norte-americano de cicloturistas vem chamando a atenção por onde passa na América Latina. Com força de vontade e sem perder o bom humor, Tauru Chaw e Christi Bruchok pretendem percorrer, em 18 meses, o continente americano de ponta a ponta, em um total de 26 mil quilômetros. O feito já seria impressionante, não fosse por um detalhe: ele está perdendo a visão e ela é cega.

Nascido há 42 anos no Vietnã, Tauru mudou-se para os Estados Unidos com apenas 5 anos. Teve uma adolescência saudável até que foi diagnosticado com um problema degenerativo que destrói aos poucos sua retina. Em 2004, ele trabalhava na Intel Corporation (empresa que produz chips para microprocessadores) quando conheceu Christi, hoje com 31 anos, que fazia uma apresentação sobre dicas para se trabalhar com pessoas com deficiência visual (ela nunca enxergou). A aproximação deles foi imediata. Logo embarcaram juntos para a Índia, em 2008. “Essa viagem pode ser considerada a precursora de todos os nossos planos futuros.” Pouco depois um escocês que pedalava sugeriu que fizessem uma viagem de bike pela América.

A ideia poderia ser considerada maluca, já que Christi nunca aprendera a andar de bicicleta. Entretanto, instigada pelo desconhecido, a dupla decidiu que o projeto poderia dar certo se optassem por uma bike tandem – com dois lugares, muito mais pesada e difícil de ser controlada do que uma convencional, mas que possibilitaria que Taurus guiasse os dois mundo afora. “Christi sempre sonhou em fazer esportes, mas sua deficiência visual criava muitas barreiras. Como eu ainda não perdi a visão totalmente, resolvemos vencer o desafio juntos – literalmente. Eu pedalo na frente e ela atrás, e um ajuda o outro”, conta.


BELA UNIÃO: O casal de aventureiros na Terra do Fogo


CARTÃO-POSTAL: Tauru admira a beleza do lago Escondido, a 40 quilômetros de Ushuaia, de Argentina

Foram alguns treinos até que, em 2009, saíram da Califórnia e pedalaram pelos Estados Unidos durante 72 dias e 5100 quilômetros.  “Fizemos essa viagem com muita calma. Não sabíamos se conseguiríamos, então pensávamos apenas em um dia de cada vez. Ficamos surpresos quando percebemos que já estávamos do outro lado do país”, diz Tauru.

De volta em sua casa, no Arizona, eles tentaram manter uma rotina certinha, mas sentiram que precisavam voltar logo para a estrada. A experiência de conhecer pessoas e desfrutar de lugares diferentes e incríveis inspirou a dupla a embarcar em uma empreitada mais ousada. Confiantes, eles começaram uma nova aventura em janeiro de 2012 – que, seguindo o bom humor do casal, foi batizada de 2 Blind to Ride (uma brincadeira com a som da palavra “two”, que pode ser entendida como “too”, ou seja, “muito cegos para pedalar” ou “dois cegos a pedalar”). Tauru e Christi partiram do extremo da América do Sul, em Ushuaia, na Argentina, e se tudo correr como previsto terminarão a viagem no “topo” da América do Norte, em Deadhorse, no Alasca, depois de percorrer 14 países.

Até o fechamento desta edição, os dois estavam em Coyhaique, no Chile. “A jornada tem sido incrível. Estamos adorando ter contato com culturas e lugares tão diferentes”, diz Tauru. Para o trajeto, eles colocaram em suas bikes um “reboque” que carrega todo o equipamento necessário, como roupas e acessórios para acampamento. Ao chegar a uma cidade grande, a dupla opta por andar, já que o tráfego intenso de carros pode colocar em risco a segurança dos viajantes. “Estamos tomando cuidado com absolutamente tudo. Nossa visão é limitada, por isso nos preocupamos em dobro. Esse é, sem dúvida, nosso maior desafio”, explica Tauru.


JORNADA HISTÓRICA: Tauru e Christi durante a expedição Two Blind to Ride

NÃO É NOVIDADE PARA OS CICLISTAS que uma das vantagens de montar em uma bike é a oportunidade de apreciar o visual que corre pelos olhos na mesma velocidade do pedal. Mas há outras sensações tão imperdíveis, apreciadas mesmo por aqueles que nada podem enxergar. “Tem gente que pensa que não aproveito a viagem como ciclistas com a visão perfeita, mas isso não significa que eu não estou presente ali. Pelo contrário: estou lá vivenciando cada segundo. É mágico”, diz Christi.

 O ciclista brasileiro Adauto Xavier também concorda. Ele sofre de um problema degenerativo similar ao de Tauru e, mesmo assim, já realizou feitos inesquecíveis. Em 2008, partiu em uma expedição de bike tandem de Paraty a Brasília, percorrendo cerca de 2 mil quilômetros. “O esporte me faz esquecer a deficiência visual. Quando pedalo, elimino as barreiras.”, explica Adauto. Em 2010, ele competiu na Brasil Ride, disputada em 600 quilômetros de mountain bike na Chapada Diamantina, e em 2011 participou de um dos maiores desafios de mountain bike do planeta, a ultramaratona Cape Epic, na África do Sul, ao lado do amigo e companheiro de aventuras Mario Roma.

“Queremos mostrar que a deficiência visual não precisa limitar um sonho”, explica Tauru sobre seu objetivo de aumentar a conscientização de quem tem deficiência visual sobre suas possibilidades na vida. Durante a viagem, o casal pretende atingir um público de 100 mil pessoas, divididas entre redes sociais, como Facebook (facebook.com/2Blind2Ride) e o site oficial da viagem (twoblindtoride.org).

Quando a história da dupla começou a correr o mundo, uma equipe de cineastas resolveu registrar a trajetória e reunir o material em um documentário. “Esperamos que o filme nos faça ultrapassar ainda mais fronteiras, levando nossas história e lições de vida para mais gente”, diz ele.

A expedição Two Blind To Ride ainda precisa percorrer muitos quilômetros até ser finalizada, mas Tauru conta que vai aproveitar a viagem como nunca, já que esta pode ser a última nesse estilo – seus olhos não enxergam mais como antigamente. “Eles estão se desligando, mas eu e Christi enfrentaremos isso juntos e teremos novas saídas e oportunidades, tenho certeza. Não quero parar de pedalar nunca”, diz ele, confiante.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de maio de 2012)








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