
VISUAL: Fim de tarde no Rio Branco, Boa Vista. Dia de descanso antes do começo da expedição.
Texto e fotos por Otávio Lino
Depois de longos 24 quilômetros de caminhada, estávamos todos encharcados pela chuva que não dava trégua. Andávamos já havia cinco dias sempre em condições adversas, névoas que tiravam nossa visibilidade, 1.700 metros de desnível em relevo acidentado e um frio que não imaginávamos encontrar por estarmos tão próximos da linha do Equador.
Era nítido o cansaço de todos os oito participantes da expedição naquele fim de dia, ainda mais por sabermos que continuaríamos sem banho, dormindo no chão duro e ambiente úmido da gruta que nos servia de abrigo. Mesmo assim, ao anoitecer, todos nós nos juntamos ao nosso guia e aos índios que nos auxiliavam, e tivemos um jantar animado de histórias místicas sobre a região. Todos ao redor do fogareiro improvisado, agachados sob um teto de pedra baixo, no cômodo da gruta utilizado como cozinha. E foi ali, tomando um chá quente feito com flores carnívoras que ouvi a melhor explicação sobre o que se sente em cima do Monte Roraima. Em poucas palavras, foi assim que Rubens, o mais novo do grupo e estreante em expedições, descreveu o que sentia: “Se eu disser que o Monte Roraima é bonito vou estar mentindo. Porque o bonito é algo que se compara com o feio, o menos bonito. E nada que eu já vi na vida se parece com o que eu vi hoje. Aqui é um lugar surreal”.
De fato, o Monte Roraima não é uma montanha qualquer. É considerado uma montanha sagrada por toda a etnia de índios pemón, que vive há séculos nas região. Para eles, ali é a casa do deus Makunaima, criador do mundo. É o gigante verde-azulado, significado da palavra Roraima no idioma indígena, pela coloração de suas rochas que chegam a atingir mais de 500 metros em um verdadeiro paredão vertical. É o El Dorado descrito em 1844 pelo botâncio alemão Richard Schomburgk, que, como outros à sua época, fez a extenuante expedição para chegar na base da montanha, não ter condições de subir até o topo e ter de voltar pra casa.
Mas, se subir esta montanha não é tarefa das mais fáceis até hoje, quem dirá no século XIX. Os únicos que realmente conheciam a região eram esparças tribos indígenas que respeitavam tanto a montanha que não se atreviam a enfrentá-la. A missão era tão difícil que foi só em dezembro de 1884 que finalmente sua paisagem foi revelada.
Para isso, Sir Edvard im Thurn precisou de exatos 69 dias de expedição (sem contar o caminho de volta) para atravessar a densa floresta amazônica da Guiana, chegar à savana venezuelana, construir um grande acampamento na base do monte e finalmente chegar ao seu cume depois de uma árdua subida. A rota escolhida por ele é a única que permite a chegada ao topo sem escalada até hoje.
Nossa expedição, claro, foi bem menos laboriosa.Realizamos um “river tour” para ver o Sol se por às margens do Rio Branco, em Boa Vista e não precisamos acampar na floresta amazônica. Atravessamos a fronteira para a Venezuela, e de lá, em Santa Elena de Uairén, subimos nos jipes e entramos nas estradas de terra da gran sabana.


AVENTURA: Equipe no topo do Monte Roraima, abaixo à esq., céu encoberto anunciando o temporal que viria no meio da madrugada e, por último, acampamento da equipe
Começamos nossa caminhada no mesmo dia que deixamos Boa Vista, com o Sol a pino equatorial e uma garoa que caia bem de leve. Estava ansioso para por a mochila nas costas e começar a andar. Durante meses aguardava por este dia e finalmente tenho a Gran Sabana bem à minha frente, a se perder de vista.
Ao final do dia chegamos ao acampamento rio Tek, com uma vista panorâmica de toda a popa do Roraima, chamada assim por ser muito mais larga do que a outra ponta da montanha, que termina em uma espécie de bico de navio e, por isso, é chamado de proa.
Do acampamento ainda não é possível termos uma ideia das dificuldades que iríamos enfrentar nos próximos dias, não só pela distância que ainda é grande, como também pelas nuvens constantes que em minutos escondem totalmente as duas montanhas da nossa visão. Mas não era hora de se preocupar com os dias seguintes e sim de tomar um refrescante banho de rio, jantar e dormir o melhor possível. Aliás, no dia seguinte me disseram que durante a noite caiu um grande temporal, mas confesso não ter ouvido nem os roncos do Luis , meu parceiro de expedição, dentro da barraca.
O segundo dia de caminhada nos leva até a base da montanha, sendo consideravelmente mais isolado, difícil e bonito que o dia anterior. O relevo vai ficando mais inclinado e acidentado à medida que se aproxima do acampamento base. Uma grande quantidade de rochas que um dia rolaram montanha abaixo e uma forte neblina que diminuía consideravelmente nossa visibilidade davam um ar sombrio à paisagem.
Chegamos no meio da tarde ao acampamento base. Naquela noite provamos um típico prato indígena local: tanajuras fritas, caçadas em meio à um enorme ataque da saúvas pelo nosso cozinheiro Eduardo, índio de 27 anos e que desde os 15 sobe a montanha diversas vezes ao ano. Foi uma boa experiência, o que não significa ter sido saborosa! A cabeça o o tórax da enorme formiga, ainda quentes da frigideira, lembram aqueles milhos de pipoca que ficam queimados sem estourar no fundo da panela. Já o abdome, grande e repleto de óvulos de uma formiga rainha prestes a criar um novo formigueiro, parece uma massa pastosa e oleosa, sem um gosto muito bem definido. O mais próximo que o sabor me lembrou foi uma colherada de cérebro de porco que provei na patagônia chilena, outra experiência pouco saborosa que já tive. Mas, como me dizia um amigo espanhol: Hay que probar!
A noite, enquanto estávamos reunidos para (agora sim) comermos um reforçado e saboroso prato de comida, o clima era de bastante descontração enquanto falávamos sobre nossas dores no corpo e toda sorte de falta de comodidades às quais já estávamos quase acostumados. Mas a floresta densa e o paredão logo ao lado nos preocupava. Se no dia que estava acabando já havíamos subido cerca de 750m em altitude, o dia seguinte nos reservava quase mil, em uma subida muitas vezes mais acentuada.
Aliás, é justamente ela que impediu por décadas o acesso ao topo do Roraima. A vegetação, que lá no século XIX era completamente intocada, hoje tem seus caminhos abertos, o que facilita muito. Mas pelo menos um ponto ainda continua tal qual era: o passo das lágrimas. Uma enorme cachoeira que desaba em rochas soltas próximas ao desfiladeiro, com a queda dágua ainda mais forte quando chove no dia anterior (o que era o nosso caso, para nossa alegria).
Enfim, chegamos ao temido passo das lágrimas. Mas passamos por ele tão rápido e sem grandes dificuldades que mal deixou a impressão de perigo. Dali em diante, precisamos de pouco mais de meia hora para finalmente alcançarmos o cume. Fazia muito frio, não só pelo vento e pela chuva, mas também pelos quase 2.800 metros de altitude aos quais acabávamos de chegar. E, se o leitor me permite, irei usar novamente as palavras de nosso primeiro desbravador para descrever o que eu e mais sete pessoas acabavam de contemplar pela primeira vez em nossas vidas, da mesma forma que Thurn o descreveu pela primeira vez desde que a Terra havia se formada:
“A primeira impressão foi a incapacidade mental de compreender aquele ambiente. A próxima foi a de entrar em um estranho país de pesadelos, onde uma paisagem descontroladamente fantástica havia sido formada, em um dia terrível e tempestuoso, quando nuvens quebradas e caóticas haviam sido endurecidas em um único instante em pedra. Por todos os lados eram rochas de formas aparentemente impossíveis, em posições que pareciam desafiar todas as leis da gravidade. Rochas em grupos, solitárias, em terraços, colunas, torres, muralhas, pirâmides. Pedras ridículas em cada ponto, com inúmeras caricaturas aparentes de faces e formas de homens e animais, aparencias de guarda-chuvas, igrejas, tartarugas e de inúmeros outros objetos dos mais incongruentes e inesperados. E entre as rochas, em espaços nunca muito grandes, locais de pura areia amarela, pequenos rios, cachoeiras e banheiras de águas puras. Aqui e ali alguns pequenos pântanos, com uma vegetação sempre de tamanhos e formas reduzidas como miniaturas. Nenhuma árvore. Nenhum sinal visivel de qualquer animal, tão intensamente quieto como se nunca nenhum houvesse jamais estado lá.”

FORÇA NA PANTURRILHA: Um passo de cada vez para chegar ao topo do Monte Roraima
No próprio dia da subida, após nos alojarmos na nossa “gruta hotel”, o clima nos foi generoso e permitiu que fizéssemos uma breve expedição ao ponto culminante da montanha. Não é uma grande ascensão, pois a montanha é basicamente plana. Talvez o mais interessante seja o fato de que este ponto esteja exatamente na borda do precipício, em cima da formação chamada de Pedra Maverick, por ter a forma do lendário carro da Ford lançado nos anos 70. Chegamos sobre a “lataria de pedra” já no começo da noite e com o tempo virando novamente, não sendo possível enchergar nada além de cinco ou dez metros à frente. Aliás, fato que se tornaria rotineiro nos dias que viriam. Mas foi um grande momento de contemplação de uma natureza bruta e um silêncio absoluto.
No dia seguinte nos dirigimos ao ponto mais distante da expedição, rumo à tríplice fronteira entre a Venezuela, Brasil e Guiana. A demarcação de fronteira entre os paises foi acordada ainda no fim do século XIX, porém sem que houvesse um marco que a determinasse. As fronteiras estariam fixadas, então, pela divisão das águas que alimentassem a bacia hidrográfica dos rios Orinoco (Venezuela), Rio Esequibo (Guiana) e Rio Branco (Brasil). A construção do ponto geodésico foi feita de fato somente em 1934, no local em que estávamos naquele instante. É a entrada para a região mais inóspita de todo o tepuy. A partir dali se tem acesso ao labirinto, que faz juz ao nome, e para a região da proa e do Lago Gladys, locais em que só se chega com bom tempo e utilização de cordas.
Pouco antes do ponto triplo passamos pelo vale dos cristais, o afloramento de uma camada sedimentar de onde surgem cristais de quartzo por todos os lados que se olheO vale fica muito próximo de um enorme pântano, e a visibilidade é ainda menor do que nos outros locais em que já havíamos passado. O tom negro das rochas dá espaço pra uma paisagem muito mais branca e delicada. Eles afloram do chão, das paredes de rocha e no fundo de cada pequena poça e riacho que passam por ali.
Logo em seguida por um grande fosso de alguns metros de diâmetro e tantos outros de profundidade, de onde se pode observar as águas de um pequeno riacho correrem lá embaixo. O tempo estava pouco amistoso e desencorajou o banho, que não seria uma má ideia em outra situação metereológica. Almoçamos ali mesmo um prato rápido de arroz carreteiro com chuva e suco, e retornamos para nosso abrigo, que havia ficado quilômetros atrás. Foram algumas horas de caminhada initerrupta, a não ser por algumas passagens em cânions em descidas de vales que freavam um pouco o ritmo. Chegando ao abrigo, o fim da tarde se transformou em uma linda noite de céu completamente estrelado a cada cinco minutos, dependendo da movimentação das nuvens. Um grande começo de noite.
Nosso terceiro dia em cima do topo seria o último de exploração. Antes das seis da manhã todos já estavam fora das barracas e o clima não era nada animador. Chovia e fazia ainda mais frio do que no dia anterior. Crentes de que o dia estava perdido, aceitamos a proposta do Léo, nosso guia, de visitarmos a gruta de los Guácharos, nome dos pássaros que a habitam. A caverna de arenito tem centenas de metros de comprimento, com salões hora grandes o suficiente para estarmos todos juntos e em pé, hora tão pequenos que tínhamos que passar um a um rastejando em túneis de alguns metros. Dentro dela um rio nos acompanhava e nos obrigou a uma pequena escalada para descermos uma de suas cachoeiras. Uma sensação indescritível estar dezenas de metros abaixo e adentro da superfície de uma montanha de bilhões de anos de idade.
Pela tarde fomos às ventanas, locais na borda do precipício de onde em teoria se pode avistar todo o horizonte à frente do Roraima. Talvez mais para cumprirmos um protocolo daquilo que havíamos planejado, mas a falta de visibilidade foi total. Cheguei à conclusão de que não teríamos, de fato, nenhum contato entre o mundo no Roraima e o fora dele enquanto estivéssemos lá em cima.
Por fim, passamos por uma região com diversas jacuzzis naturais, obviamente nada aquecidas, o que intimidou a maioria de nós. Eu, que há dias me recusava a tomar banho no fio de água que caia perto de nosso “hotel”, não pensei nem cinco vezes e escolhi uma que achei mais acolhedora para fazer o merecido asseio corporal. Voltamos ao abrigo, nos aquecemos com roupas secas e aos poucos cada um ia apagando em sua barraca, exaustos de tantas experiências.
No dia seguinte estávamos prontos para voltar à realidade. Em mais dois dias de caminhada completaríamos os 96km estimados, e teriamos uma história quase épica dentro da cabeça de cada um. O Monte Roraima é mesmo difícil de se compreender.
Durante a subida mal reparei no caminho que estava atravessando, tanto pelas dificuldades do percurso quanto pela ansiedade de chegar logo ao topo. Mas enquanto descia consegui olhar com mais calma para tudo que estava ficando para trás. O passo das lágrimas agora pode ser contemplado não só como um grande obstáculo para quem quer subir. Parecia agora, aos meus olhos, uma grande passagem para outro mundo que está logo além dele, como se a partir dali estivéssemos sendo autorizados por Makunaima a conhecer seu grande templo, a mãe das águas. Metros adiante do passo, uma enorme rocha de talvez 20 ou 30 metros de alturura aparece à frente. Ela estava ali na subida, mas só agora eu de fato a vi. É o enorme busto de uma pessoa. Dizem os índios que é a personificação de seu Deus, com uma enorme coroa de arbustos sobre sua cabeça, e uma fina torre de rocha ao seu lado esquerdo, erguido tão ereto como o próprio busto, como um grande cajado. Sentia a sensação de estar deixando um mundo encantado e voltando ao mundo real, mas levando comigo um respeito e admiração à natureza ao mesmo tempo bruta e delicada.
Otávio Lino é estudante de jornalismo escreve para o site latitude56.com.br